sábado, 21 de Novembro de 2009

Cassandra Wilson
Cassandra Wilson deu um grande concerto no âmbito do Guimarães Jazz. Miss Wilson está em excelente forma e foi acompanhada por músicos (piano, contrabaixo, guitarra, bateria e percussão) irrepreensíveis. Figura desde já no meu top five de 2009, e, dado o avançado do ano, com poucas probabilidades de ser daí arredado.

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Hupokrisis
Observo-os diariamente: o ar simuladamente atarefado, o sorriso falso, a postura ensaiada. Troco com eles duas ou três palavras e vejo-os como realmente são: ocos, desprovidos de qualquer espécie de sentido crítico relativamente ao que quer que seja, ignorantes de tudo o que os rodeia. Vivem uma vida de hipocrisia, no sentido etimológico da palavra, e parecem sentir genuíno orgulho nisso. Penso para mim: coitados, se calhar, já nem se esforçam por ser assim; se calhar, o hábito criou a genuinidade. Compreendo, então, quão triste pode ser uma existência. Mesmo, ou sobretudo, quando não sabe que o é.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Fora do baralho
Vi-a ontem ao início da noite, na baixa. Não a vi-a há cerca de dois anos. Terá já 18 anos? Não creio. Estava mais limpa e arranjada. Sobressaíam os mesmos olhos: grandes, claros e brilhantes. E tristes. Pedia esmola num cruzamento, outro cruzamento, como antes. O que tem esta sociedade a oferecer a uma jovem, provavelmente proveniente de um meio problemático (da primeira vez que a vi, pedia esmola no Campo Alegre, perto do acesso ao Bairro do Aleixo), sem uma perna? O que fazer com uma pessoa como ela, para além da habitual e caridosa esmola? Como acreditar que algum dia terá uma oportunidade, ínfima que seja, se essa oportunidade é todos os dias negada a pessoas sem quaisquer limitações? Na cultura do sucesso a qualquer custo, pessoas como ela são cartas fora do baralho, precocemente afastadas do jogo. À espera de nada antes dos 20 anos.
Desafios
Mesmo quando o talento escasseia, como é notoriamente o meu caso, devemos evitar dizer não a um desafio. Assim, apesar das dúvidas, disse sim.
Ouvindo

The Complete Billie Holiday on Columbia (1933-1944). A caixa contém 10 discos, com todas as gravações realizadas por Billie Holiday para a Columbia, e editoras subsidiárias, entre 1933 e 1944 (apenas fica de fora Lady in Satin, de 1958), um livro com fotos raras, e dois ensaios que ajudam a conhecer e compreender a vida e a carreira de Lady. Imperdível!

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Casamento entre pessoas do mesmo sexo
Repesco o texto que aqui publiquei no início do ano, O progresso é também isto:
Estive em Madrid uns dias, por ocasião da passagem de ano. Gosto muito da cidade, onde já passei um curto, mas enriquecedor, período da minha vida. Durante esses dias, reparei num pormenor curioso: os casais constituídos por pessoas do mesmo sexo, homens ou mulheres, de quaisquer idades, passeiam-se pelas ruas da cidade na maior descontracção, de mãos dadas e dedos entrelaçados, com paragens ocasionais para dar um beijinho; enfim, aquilo que qualquer casal heterossexual sempre pôde fazer sem sentir automaticamente todos os olhares virarem-se para si.
Nunca avaliei as pessoas em função das suas opções sexuais, porque isso nada me diz sobre elas. Sempre senti que a minha heterossexualidade em nada diferia da homossexualidade, excepto no que respeita ao objecto do meu desejo, e, como não sei explicar o mecanismo de formação do desejo e, consequentemente, desconheço como se pode manipulá-lo, não considero, sequer, a minha heterossexualidade uma opção; é apenas um dado adquirido. Assim, gostei de ver que em Madrid, neste momento, todas as pessoas podem viver as suas relações sem necessidade de se esconderem dos olhares públicos. Ainda que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não tivesse qualquer outro benefício, o facto de facilitar a aceitação social da relação que lhe subjaz é, por si só, mais do que suficiente.

domingo, 15 de Novembro de 2009

Ouvindo
Sunday at Devil Dirt, de Isobel Campbell & Mark Lanegan. A escrita das canções, a produção e os arranjos ficaram a cargo de Campbell. A voz de Lanegan é responsável pela sensação de que Cohen e Cave andam por aqui. Há um pouco de tudo: country alternativo, folk, blues, jazz, etc. Contudo, foi criada uma atmosfera que soa a tudo isto sem que, na maioria dos casos, algum dos estilos se sobreponha. E é isso que torna esta música tão interessante.
(Podem ver aqui uma entrevista a ambos, após o lançamento do álbum anterior, Ballad of the Broken Seas.)
Uma crónica
Ontem, na Comunidade de Leitores, referi uma crónica de Baptista-Bastos, Memória de um Natal, como exemplo do tipo de crónica que, em vez da habitual propaganda política disfarçada de crónica, gostaria de encontrar mais na nossa imprensa. Porquê? Leiam, e percebem. Transcrevo-a na íntegra:
«Faz agora anos. Eu era um tira-picos na Redacção de O Século. A "universidade", a "catedral", diziam uns e outros. Entre receoso e feliz olhava aqueles homens graves, que escreviam o jornal com a vaidade de quem está a retratar o mundo em corpo 8 redondo. Grandes, extraordinários jornalistas, obscuros e anónimos, que sabiam, oh, se sabiam!, que as páginas impressas eram produto dessa paixão viva como o sangue. Eu era esgalgado, afirmativo, e queria caber naquela tribo. Por vezes, para "colorir" a notícia, atrevia-me à tolice do adjectivo. Chamavam-me logo: "O menino está a trabalhar num jornal que custa cinco tostões. Não queremos cá Malhoas!" O chefe da Redacção, Acúrsio Pereira, uma lenda da Imprensa. Pequeno, gritador emérito, comentava-se que dormia embrulhado em folhas impressas. Dividia a humanidade em jornalistas e não-jornalistas, sendo O Século a representação do seu império. O Século pertencia à família Pereira da Rosa, mas o jornal era do Acúrsio. Faz agora anos: uma noite de frio e de morte. Naufrágio na Nazaré. Fora para lá uma equipa de quatro repórteres, dirigida por Francisco Mata, outro dos grandes, mas o Mata ficara impressionadíssimo com o que observara na praia, e não conseguia organizar a reportagem. Eis o Acúrsio a gritar-me: "Vai imediatamente para a Nazaré!" O pavor tomou-me nos braços. O tira-picos fora mandado sair do túnel e entrar em campo. Percebendo a minha comoção, o Acúrsio ensinou-me: "Abres a reportagem com a primeira cena que te emocionar. E eu estou aos telefones!" O barco estava a meia dúzia de metros da praia. A praia era um mar de gente, de imprecações, de preces e de choros. Centenas de mulheres, embiocadas de negro, pareciam os coros das tragédias gregas. O barco não conseguia vencer a força do mar, e elas avançavam por ali adentro, puxando as sirgas, e dialogando com os pescadores. "Eh, Toino: aguenta-te homem do meu coração!" "Tás aí, Amélia?" O barco ia para trás e para a frente, o cansaço acumulava-se, o tempo ia varando o tempo, e elas, de negro, revezavam-se no puxar das sirgas. Até que conseguiram. Correram para o mar, agarraram-se às amuradas. Então, um deles avisou: "Eh, mulheres: cheguem-se para lá, que nós estamos como viemos ao mundo!" O poder das ondas arrancara-lhes a roupa dos corpos. Havia qualquer coisa de extraordinário naquele pudor, porventura absurdo, mas de uma grandiosidade tão humilde como sagrada. O episódio foi, depois, aproveitado em livro, por um escritor da época. Com os olhos cheios de lágrimas, telefonei para o jornal. Começava o texto com a frase do pescador. O Acúrsio gritava: "Mais! Diz mais coisas!" Relatava o que via. Eles crucificavam-se em lágrimas, eu não podia ter o coração oco. Faz agora anos. Por um Natal.»

sábado, 14 de Novembro de 2009

Coisas que contribuem para a (minha) serenidade
Hoje às 21h00, na Casa da Música, decorrerá um concerto da Academy of Ancient Music, num programa com peças instrumentais e vocais de Haendel e Purcell. Amanhã às 18h00, no mesmo local, será a vez da Akademie für Alte Musik Berlin, com obras de Matthew Locke, de Purcell e de Haendel. Ambos fazem parte do Festival À Volta do Barroco.
Apesar do mau tempo, o fim-de-semana promete.
Às vezes, porém, a serenidade sofre uns abalos
Após um bom descanso, evidentemente, volta-se revigorado ao trabalho, e tudo decorre de forma mais célere e eficaz. Sobretudo quando, como aconteceu, quem manda reclama.
Felizmente, nada que nos impeça de continuar a analisar e discutir.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

E, claro, tudo sempre com muita serenidade
O que é preciso é descansar. E, depois, discutir, discutir, discutir. Discutir tudo, muitas vezes e de muitas formas, para nada fazer. Nada.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

O nosso viver colectivo (2)
E, em jeito de continuação, sempre digo que gente como Manuel Godinho, que a imprensa designa quase sempre como “o sucateiro” – o correcto seria “o empresário”, penso eu -, não é em nada pior do que os lordes da Opus Dei ou da Maçonaria que mandam neste país. Aliás, essa gente compra os supostos lordes - que, sem pudor, os colunistas e a imprensa em geral designam por “elites” - como quem compra uma caixa de puros cubanos. Alguns, certamente, até saem mais em conta.
O nosso viver colectivo
O Estado de Direito é, também, aquilo que os cidadãos fazem dele. Os cidadãos portugueses saem à rua aos milhares para se manifestarem contra um processo de avaliação de desempenho (não estou a dizer se concordo ou não; apenas exemplifico), mas comem calados a corrupção e o nepotismo que lhes entra pela casa dentro à hora de jantar como se fosse um acepipe. (Os que lutaram, como o ex-deputado socialista João Cravinho, foram corridos; neste caso, para um emprego de luxo em Londres.) Também não ficaram particularmente chocados, por exemplo, com certas prioridades na vacinação contra o h1n1; se ficaram, mais uma vez comeram e calaram. Contudo, há quem use da palavra para defender o “nosso viver colectivo”. Qual “viver colectivo”? O que temos? Vá ele com o raio que o parta!

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Ouvindo
Fine and Mellow, na voz de Billie Holiday e com a participação de Lester Young, interpretado ao vivo na CBS em 1957 (imagem ao lado). O fim estava próximo, a voz de Holiday praticamente destruída, Lady e Pres não estavam juntos há muitos anos, mas, naquele momento, sente-se a magia presente. Sempre esteve, aliás. É assim com as almas gémeas, no que quer que seja.
(Este é um dos discos, porventura o mais acessível, em que se pode encontrar esta versão de Fine and Mellow. Podem ouvir - e ver - aqui ou aqui.)

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

A frase do dia, da semana, do mês e do ano (deste e do próximo)
Noronha do Nascimento, Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, aos jornalistas: «Não responderei a isso, até porque estou sujeito ao segredo de justiça. Perguntem ao Senhor Procurador-Geral da República.»

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

20 anos depois
A queda do muro de Berlim não aconteceu numa noite – a História não é assim tão simples –, mas é uma, a da passagem de 8 para 9 de Novembro de 1989, que simboliza a queda dos regimes comunistas do leste europeu. Naturalmente, é um dos temas mais debatidos por estes dias, embora nem sempre com o rigor devido.
Uma das questões que vejo colocar aos naturais da antiga RDA que por lá ficaram é: estão melhor agora? Muitos respondem negativamente: há mais desemprego, há mais instabilidade, têm de decidir tudo sozinhos. São os mesmos que há 20, 30, 40 anos, apenas pensavam na liberdade.
A liberdade é um instinto do ser humano, mas a sua concretização, em circunstâncias normais, resulta de um processo gradual de aprendizagem. Decidir é difícil para todos, mas mais para quem não passou por esse processo, porque implica fazer opções e, consequentemente, correr riscos.
Não sendo o mundo em que vivemos o ideal, tudo é melhor do que não nos darem a liberdade de ser humanos. Há 20 anos milhares de pessoas lutaram pelo que queriam. Não correu tudo bem? Pois não. Têm de lutar agora pelo que falta.

domingo, 8 de Novembro de 2009

Em poucas palavras
A fragilidade e o carácter passageiro da vida humana - é triste mas é mesmo assim - num número coral de Johann Sebastian Bach, ouvido hoje na Casa da Música:
Ai, quão fugidia, quão vã
É a vida humana!
Como uma névoa, ora surge,
Ora volta a dissipar-se,
Repara, assim é a nossa vida!
(No original: Ach wie fluchtig, ach wie nichtig / Ist der Menschen Leben! / Wie ein Nebel bald entstehet / Und auch wieder bald vergehet, / So ist unser Leben, sehet!)

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Cassandra Wilson


Agradecimento (tardio) a Fernando Magalhães
Nos últimos dias tenho lido testemunhos de pessoas que, de uma forma ou de outra, foram marcadas pela actividade de António Sérgio, falecido no passado Domingo. De António Sérgio recordo os últimos tempos de Som da Frente e, sobretudo, A Hora do Lobo. Aprecio e admiro pessoas que se dedicam a contagiar os outros com a sua paixão, e a paixão de António Sérgio era a música alternativa, não necessariamente no sentido que hoje se dá à música alternativa, como categoria, mas naquele sentido em que é algo que foge ao que é mais apelativo de um ponto de vista comercial.
No dia em que António Sérgio faleceu, Alexandra Lucas Coelho escreveu no Público uma crónica dedicada a Fernando Magalhães, falecido em 2005. Recordei quando comprava o Público ao sábado e a primeira coisa que lia era a última página do suplemento Mil Folhas, onde Fernando Magalhães escrevia crítica musical. Aí pude conhecer coisas novas, ler textos que normalmente confirmavam as minhas impressões ou comover-me, como aconteceu quando li a crítica a May de Music Never End, a última gravação de estúdio de Shirley Horn. Recordei também quando li a notícia da sua morte e senti que tinha desaparecido alguém com quem partilhava uma paixão e com quem muito tinha aprendido. E agora apeteceu-me escrever isto. Como agradecimento tardio.
Curiosos critérios (2)
Pouco depois, no mesmo blogue, outro elemento afirma que o que Louçã disse é mentira, e que quem no BE não se opõe ao que foi dito é ignorante ou desonesto. Enfim, aqui chegados não percebo nada! Pois se o colega de blogue deputado do PS, referindo-se ao comentário de Louçã, não o desmentiu, mas antes confirmou, afirmando apenas que Sócrates havia gasto três vezes mais por necessidade e não por escolha, em que ficamos? O colega de blogue deputado do PS é ignorante?
Curiosos critérios
Na opinião de um deputado do PS, o facto de um deputado do BE confrontar o Governo com uma opção governativa, e criticá-la, revela falta de seriedade e irresponsabilidade. Já o facto de o Primeiro-Ministro achincalhar um deputado do PSD deve ser revelador de uma conduta absolutamente irrepreensível.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Ouvindo
DINAH!, de Dinah Washington. Não ouvia este disco há algum tempo, mas lembrei-me dele ao ver isto. (Na verdade, enganei-me e lembrei-me de For Those In Love.) Nem todo o repertório da cantora passou o teste do tempo, mas este disco de 1956, juntamente com For Those in Love, Jam Sessions e After Hours with Miss D, é do melhor que Dinah gravou.
(E tem a nossa canção, minha querida: All of me / Why not take all of me / Can't you see / I'm no good without you / Take my lips / I want to lose them / Take my arms / I'll never use them / Your goodbye left me with eyes that cry / How can I go on dear, without you / You took the part that once was my heart /So why not take all of me)

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss: 1908-2009
«O tombadilho de um barco a caminho da América oferece ao homem moderno, mais do que Atenas, uma acrópole para a sua oração. Iremos recusá-la doravante, deusa anémica, orientadora de uma civilização emparedada! Acima desses heróis - navegadores, exploradores e conquistadores do Novo Mundo - que (enquanto aguardavam a viagem à Lua) viveram única aventura total oferecida ao homem, o meu pensamento ergue-se para nós, sobreviventes de uma retaguarda que pagou tão duramente a honra de manter as portas abertas: índios, cujo exemplo através de Montaigne, Rousseau, Voltaire e Diderot, enriqueceram a substância com a qual a escola me alimentou, Hurons, Iroqueses, Caraíbas, Tupis, aqui me têm!»
Claude Lévi-Strauss, Tristes Trópicos. Edições 70.
A ler
A crónica de Daniel Oliveira na última edição do Expresso. Confesso que não me interessou tanto o objecto, George W. Bush, como a aplicabilidade de muito do que é dito a tantas situações do nosso quotidiano. Por exemplo, isto:
«Na realidade, a maioria das pessoas não respeita a inteligência e o conhecimento. Toma-a por arrogância. A ideia democrática de que tudo é possível e que basta muito esforço para chegar ao céu acaba por promover a mediania. Só que a liderança não é para gente normal. É para gente extraordinária. É para os melhores entre nós. O preço de dar o poder a um 'tipo normal' está à vista.»
Infelizmente, entre nós a situação é pior. Não é (sobretudo) a ideia democrática de que tudo é possível e que basta muito esforço que explica o que está à vista; em Portugal ninguém acredita na ascensão social em virtude do esforço pessoal. O que explica o que está à vista, e é nisso que se acredita, são os conhecimentos, as cunhas, as luvas, os compadrios e o lambe-botismo.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Ouvindo
Motherland, de Natalie Merchant. Embora aprecie os 10.000 Maniacs, prefiro a sua carreira a solo. As canções de Merchant são todas fabulosas, mas ultimamente tenho ouvido, mais do que qualquer outra, Motherland. Um excerto:

Where in hell can you go
Far from the things that you know
Far from the sprawl of concrete that keeps crawling its way
About 1,000 miles a day?
Num mar tempestuoso
Ultimamente sente algum desencanto em relação a muitas coisas. Como se muito daquilo em que sempre acreditou, e que funcionou para ele como um porto de abrigo, estivesse a desaparecer. Ou ele a deixar de acreditar. Força-se a cumprir rotinas, a repetir gestos, na esperança de que as peças do puzzle encaixem novamente umas nas outras e tudo faça sentido, mas nada parece resultar. Embora não goste da sensação de andar à deriva, recorda as palavras de Thomas Jefferson: «A liberdade é um mar tempestuoso.» Talvez sair do porto de abrigo não seja assim tão mau. Aproximam-se tempos novos.
Cantos e algum desencanto
Ontem assisti a Três Cantos, espectáculo que consagra a união em palco de José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto Bordalo Dias. Do ponto de vista da produção, o espectáculo foi irrepreensível, muito embora os arranjos em uma ou outra canção não fossem do meu agrado (questão de gosto pessoal). O problema é mesmo esse: tudo muito certinho, muito perfeitinho. Até as palavras lançadas entre canções me pareceram ensaiadas, preparadas para arrancar aplausos fáceis, que, aliás, não faltaram. Valeu a pena, sim, sobretudo por Fausto, mas esperava mais.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Agradecimento ao Cineclube de Joane
Ontem, na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, tive o prazer de assistir à projecção de Roma, Cidade Aberta, obra maior do realizador italiano Roberto Rossellini. Foi a primeira vez que vi este filme, e ainda bem que o pude ver no formato adequado. A iniciativa foi do Cineclube do Joane, graças ao qual já assisti, no mesmo local, ao Persona, de Ingmar Bergman. Organizações como esta são a prova viva de que pequenos grupos, fora das grandes cidades, podem fazer muito pela cultura. Eu desloco-me frequentemente do Porto (desta vez ficou a caminho, pois vinha de Braga) para assistir a eventos desta natureza. Quem quer fazer ou encontrar, consegue. É só não ficar sentado à espera que as coisas surjam do nada.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

A questão da igualdade
Já tivemos em Portugal uma Ministra para a Igualdade, que não durou muito nem muito fez, e agora temos uma Secretária de Estado da Igualdade. Dando de barato a despromoção da questão, vamos a factos: temos 5 pastas ministeriais entregues a mulheres, o que não totaliza sequer um terço dos Ministérios; temos 5 Secretarias de Estado, em 37, nas mãos de mulheres (façam as contas, vá); e o número de deputadas no Parlamento desceu, apesar da Lei das Quotas.
Se o Primeiro-Ministro queria efectivamente fazer alguma coisa pela igualdade entre sexos, e eu acho que deve ser feito, perdeu uma boa oportunidade quando constituiu este Governo. Nada tem a força do exemplo. O resto é atirar areia para os olhos dos outros.
A ler
A errância, mais um excelente texto de Rui Tavares, desta vez na edição de hoje do Público. Um excerto:
«Caso contrário, pensei, restar-me-ia dizer que Saramago é um ignorante filho de ignorantes cuja opinião não precisa de ser considerada. Ou sugerir que qualquer medíocre com disciplina pode ganhar um Nobel da Literatura - tal como eu, se treinar muito o drible e o chuto na bola ainda poderei um dia chegar a Eusébio. Ora ninguém me paga para escrever a crónica de Vasco Pulido Valente, não é verdade?»
Definitivamente, o meu voto nas eleições para o Parlamento Europeu foi muitíssimo bem empregue.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

A ler
o excelente texto de Rui Tavares, Era uma vez três rapazes. Um excerto:
«Poderíamos olhar para este espectáculo com o interesse algo folclórico de quem acha em casa um velho álbum de fotografias das últimas quatro décadas. Mas creio que temos aqui um privilégio maior. Aquilo de que se trata, penso eu, é da permanente história humana de como cada um de nós faz o que pode com as circunstâncias que encontra. E essa história decantada pela seriedade com que os autores ambiciosos encaram a arte.»
Sei que é verdade, mas no dia 31 deste mês, no Coliseu do Porto, confirmarei pessoalmente.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Ouvindo
1953-56 Radio and TV Broadcasts, de Billie Holiday. É o volume 2 de uma colecção que reúne aparições de Lady Day na rádio e na televisão no período compreendido entre 1949 e 1958 (há um terceiro disco, que abrange as aparições de 1956 a 1958). No essencial mantenho o que escrevi sobre o volume 1, mas achei desagradável que neste não indicassem as datas das gravações. O som é consideravelmente mais uniforme do que no volume 1, e algumas versões aqui apresentadas, como a clássica Lover Man e a pungente Please Don't Talk About Me When I'm Gone, cantada com uma urgência quase premonitória, são das melhores que já ouvi.

domingo, 25 de Outubro de 2009

Agnès Varda
Ontem fui a Serralves ver Les Plages d'Agnès, da realizadora belga Agnès Varda. É um documentário belíssimo, no qual a realizadora nos leva, através de uma viagem pelo tempo, a conhecer as praias da sua vida: a carreira, a família, os amigos, os colegas, os locais. Varda cruzou-se com quase todos aqueles que foram relevantes no cinema da segunda metade do século XX (nem Hollywod escapou), e marcou e foi marcada por todos. Enfim, toda uma vida em pouco menos de duas horas. Magnífico(a)!
Ouvindo
1949-52 Radio and TV Broadcasts, de Billie Holiday. Não seria a minha primeira recomendação para iniciados, mas é excelente para quem adora a cantora e aprecia as suas gravações menos conhecidas. As canções são por vezes entrecortadas por pequenas conversas, e é um prazer ouvi-la falar das suas canções ou de Bessie Smith. Musicalmente, destaco a frescura de Miss Brown to You, de Leo Robin, Richard Whiting e Ralph Rainger, interpretada em directo num programa de rádio, Just Jazz, em Junho de 1949, e o fraseado e as inflexões de voz em Keeps On A-Rainin', de S. Williams e S. Kortlander, gravada ao vivo no Eddie Condon Show, a 27 de Agosto de 1949.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Governo
Dois nomes chamaram a minha atenção na composição do novo Governo: Isabel Alçada e Augusto Santos Silva. A professora e escritora parece-me uma boa escolha para a pasta da Educação, já que a sua especialidade, aventuras, qualifica-a para o desafio que tem pela frente no Ministério. Quanto a Santos Silva, sabendo todos nós do assumido gosto do sociólogo em malhar, atribuir-lhe a pasta da Defesa parece-me um risco para o país.

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Ouvindo
The Very Thought of You, na belíssima e profunda voz de Norma Waterson, grande dama da folk britânica. Este disco de 1999 é, sem qualquer sombra de dúvida, um dos discos da minha vida. É impossível ouvir Love of My Life, de Freddy Mercury, Over the Rainbow, de Harold Arlen e E.Y. Harburg, popularizada por Judy Garland, Bluebird (Judy G), de John B. Spencer, e Fallen Leaves, da filha, Eliza Carthy, sem sentir um estremecimento por dentro. Música outonal para os dias frios que se aproximam.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Da estupidez
Recorrer à idade (ou ao sexo, à cor de pele, etc.) de alguém para combater as suas ideias, sobretudo nestes termos, é execrável. Recomendo à Ana Margarida Craveiro a leitura de Diana Athill e Doris Lessing, duas nonagenárias com quem muito poderá aprender. Bem precisa.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Saramago
Saiu-me um marketer de primeira. Esta pequena polémica fez mais pela venda do seu novo livro, Caim, do que mil campanhas publicitárias. Até vi, esta noite nas notícias da RTP2, uma representante da comunidade judaica em Portugal dizer que o que Saramago pensa e diz sobre religião lhe é absolutamente indiferente. Estranho é que se tenha deslocado a um estúdio de televisão para dizer isso. Para quem não liga, deu-se a muito trabalho. Saramago agradece.
Ouvindo
El Último Trago, da cantora espanhola Concha Buika, com a colaboração do pianista cubano Chucho Valdéz.
A primeira vez que ouvi falar de Concha Buika foi há cerca de três anos, em Córdoba, lendo uma entrevista* sua na revista de Domingo do El País.
Buika nasceu na Guiné Equatorial, mas cresceu em Maiorca. Começou por imitar Tina Turner em bares, mas um dia, depois de ter experimentado outros géneros musicais, percebeu que era na copla que revelava a voz em todo seu o esplendor. Contudo, Buika não se limita a cantar coplas de forma tradicional; a sua voz está impregnada pelo flamenco, pelos blues e pelo jazz.
Este disco, em que todas as influências que referi são visíveis, foi gravado em Havana e é uma homenagem à grande cantora Chavela Vargas, que celebrou este ano o seu 90.º aniversário. Apesar de estas canções terem sido popularizadas por Chavela, comparações entre ambas não são para aqui chamadas. Um conselho: se ainda não conhecem, corram a comprar.
(* Ainda guardo a entrevista. As peripécias que passei nesse dia para comprar o disco que Buika promovia na altura, Mi Niña Lola, fazem parte do anedotário da minha vida.)

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Ouvindo
Inclassificáveis, o último álbum do cantor brasileiro Ney Matogrosso. Neste trabalho, Ney retomou o glamour de outros tempos, tanto na sonoridade como na imagem, para interpretar canções como Ode aos Ratos, de Edu Lobo e Chico Buarque, Inclassificáveis, de Arnaldo Antunes, e Divino Maravilhoso, de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Claro que Ney é uma «ave rara», no melhor sentido do termo, e um caso clássico de acquired taste. Eu gosto.

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Agustina
Agustina Bessa-Luís completa hoje 87 anos, o que é um motivo tão bom como outro qualquer para a mencionar aqui. É uma das poucas figuras da nossa cultura que, à semelhança do que sucede com Amália, pode ser referida apenas pelo nome próprio: Agustina. A sua obra é avassaladora, mas permito-me destacar três livros de que gostei particularmente: O Mosteiro, Vale Abraão e o volume II da trilogia O Princípio da Incerteza, A Alma dos Ricos.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Adivinhem quem disse isto: «E quando se diz que ele é autoritário ou "chefe", eu respondo duas coisas: primeiro, que a sua autoridade tem a melhor das origens e das fontes, que é a legitimidade política e eleitoral. Segundo, que se num partido que está no poder há muitos anos existem efectivamente fenómenos de aceitação acéfala da autoridade, isso é muito mais o demérito de quem a aceita do que de quem a exerce...»
Não adivinham? A resposta está aqui. Eu não subscrevo a afirmação, mas, vinda de quem vem, parece-me, para não ir mais longe, caricata.

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Herta Müller
Ouvi pronunciar o nome da escritora romena de origem alemã pela primeira vez quando lhe foi atribuído o Nobel da Literatura. Contudo, contrariamente aos que consideram a atribuição do prémio injusta apenas porque desconheciam a existência da escritora, quero colmatar o meu desconhecimento da sua obra, pelo que comprei hoje O Homem é um grande faisão sobre a Terra, traduzido e publicado em Portugal pela Cotovia.
Herta Müller descreveu a sua obra nos seguintes termos: «Nos meus livros reflecti sempre sobre como uma mão-cheia de poderosos usurpa um país, a ponto de o país desaparecer e ficar só o Estado.» No que concerne à actualidade da obra, estamos conversados. Ou não?

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Ouvindo
Ramito de Cedrón, na voz da argentina Lidia Borda. Excelente cantora de tango, Borda centra-se aqui no repertório do cantor e compositor argentino Juan "Tata" Cedrón. Um disco que tem pouco mais de 40 minutos de duração levou-me a Buenos Aires sem sair da minha sala. Poderá haver coisa melhor?
(Entretanto, aguardo com expectativa o disco do Vitorino dedicado ao tango.)

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Os pequenos gestos
Conheço muitas pessoas que avaliam as outras em função dos grandes gestos. A mim, contudo, são sempre os pequenos gestos que sensibilizam. Mais: é quase sempre em função desses pequenos gestos que avalio os outros. Pareceu-me sempre, porventura enganando-me algumas vezes, que é fácil ensaiar gestos espectaculares com vista a produzir um determinado efeito, mas é muito mais difícil fazê-lo nas acções banais do quotidiano.